Crateús

Nota de esclarecimento do Bispo de Crateús Dom Ailton Menegussi sobre o Carnaval

MINHA OPINIÃO… MAIS DO QUE ISTO, MINHA REFLEXÃO

“CARNAVAL DE CRATEÚS NÃO SERÁ MAIS NA PRAÇA DA MATRIZ. IRÃO AGORA PROCURAR UMA RUA QUE NÃO MORE IDOSO. FAÇO UMA PERGUNTA: SERÁ QUE O PARK, MONTADO VÁRIOS DIAS NA PRAÇA, COM TRANSITO INTERDITADO, SERÁ QUE TAMBÉM NÃO PREJUDICA? DEIXE SUA OPINIÃO. OBS: NÃO GOSTO DE CARNAVAL”.

Esta “Enquete”, tal e qual, copiada e colada, foi realizada por um radialista da nossa cidade de Crateús, no dia de ontem, o Sr. Tony Sales. Posso citar seu nome aqui, uma vez que a postou em redes sociais abertas. A Enquete se refere aos últimos acontecimentos referentes ao carnaval em Crateús, mais precisamente falando, referente ao local de realização do evento.

Estou opinando, digo, refletindo, com todos os direitos de cidadão crateuense, uma vez que sou eleitor da zona eleitoral de número 020, seção 68. Ainda mais, resido nesta cidade, como representante responsável por uma instituição que conta “apenas” com dois mil anos de história, a Igreja Católica Apostólica Romana. E não usurpei tal função. Fui nomeado para a mesma pelo Papa Francisco.

Quero manifestar logo uma preocupação: temo que muitos “defensores” da cultura não lerão este texto, por achá-lo longo demais. Fico, então, pensando: quando terão lido ou lerão um livro, se uma página ou duas já parecem longas demais? Como falar de cultura, defendê-la, adquiri-la sem capacidade de saborear a leitura? Não se trata de ofensa. Trata-se de constatação.
Tive a paciência de ler todos os comentários postados como resposta à enquete acima. Li também outros, postados em outros grupos. Não costumo alimentar polêmicas em redes sociais, tanto que não quis dar entrevistas em rádios sobre o tema em discussão. Prefiro o diálogo pessoal, olho no olho, pois ali temos oportunidade de fundamentar nossas ideias e não apenas dar audiência a este ou aquele veículo de comunicação.

Enquanto pessoas me atacam pessoalmente, não me preocupo em defender-me. Quem me conhece e as pessoas a quem estou a serviço é que devem defender-me, se assim o desejarem. Acredito que o tempo é um grande sábio que põe às claras a verdade dos fatos. Não preciso de autodefesa. Creio n’Aquele que me chamou e enviou para estas benditas terras dos Sertões de Crateús e dos Inhamuns e Lhe sou e serei eternamente grato. Nunca convivi com gente mais generosa, alegre, resistente à dor e ao sofrimento; gente acolhedora, de fé, amável como este povo, que já posso chamar de meu povo.

No entanto, devo defender a Igreja, Instituição santa e pecadora, divina e humana. E minha defesa não vai na linha da negação das fragilidades da Igreja. Se ela é humana, logo traz em si as marcas do humano, dentre elas o pecado. Defendo a Igreja, porque acredito piamente que é conduzida pelo Espírito, que conta com instrumentos frágeis, que somos nós, para realizar sua missão no mundo. E aqui gostaria de convidar, sobretudo, algumas pessoas, que se referiram à Igreja como a pior das instituições do mundo, a refletir sobre os seguintes dados, partindo da atuação da Igreja em Crateús:

Algumas das primeiras escolas desta cidade e região, que formaram alguns críticos, médicos, professores, advogados, escritores etc foram iniciativa da Igreja Católica;

O Hospital São Lucas, único hospital público desta cidade, que, apesar de todas as adversidades políticas, econômicas, vem dando sinais de humanização é administrado por uma Congregação da Igreja Católica, os Camilianos;

A única casa de acolhida para idosos (tão menosprezados nas respostas da enquete), sobrevive graças à ajuda da Igreja Católica que assume seu aluguel mensalmente;

A única casa de acolhida para pessoas com deficiência mental (Amigos de Jesus) é de responsabilidade da Irmandade do Servo Sofredor, fundada pelo Padre Alfredinho, da Igreja Católica;

Muitas famílias dos bairros Fátima II, Pedra Viva, Fátima III e outras áreas desta cidade têm sua casinha, seu terreno, porque foram doados pelo Patrimônio da Igreja Católica;

Diariamente, em nossas Secretarias Paroquiais e Cúria Diocesana atendemos pessoas carentes, fornecendo remédio, alimentos, passagens, pagando conta de água, luz, aluguel etc, com a dimensão social do dízimo;

Um enorme programa de atendimento a famílias carentes, com a preocupação de oferecer oficinas de formação humana, geração de rendas, quintais produtivos, educação contextualizada, distribuição de cestas básicas, bazar solidário etc etc etc é realizado pela Cáritas Diocesana da Igreja Católica de Crateús;

Um domingo por mês recolhe-se, em nossas celebrações, alimentos que são fielmente distribuídos aos pobres e famintos;

Estamos presentes nos hospitais, presídios, nas famílias enlutadas levando consolação a quem se encontra nas situações mais vulneráveis da vida;

Enviamos ajuda em dinheiro aos flagelados dos furacões na África no ano passado, aos migrantes de Roraima (dinheiro e alimentos), partilhando de nossa pobreza;

Acolhemos jovens estagiários e jovem aprendiz em nossas secretarias, como forma de oportunizá-los ao mundo do trabalho;

Estamos ao lado dos pais e mães que sepultam seus filhos que cometeram suicídio por causa de um vazio existencial, ou foram mortos pela drogadição, infelizmente tão presente, não nas festas da Igreja, mas naquelas tão defendidas nesta enquete;

Não trazemos os jovens das periferias e do interior, para oferecer-lhes quatro dias de festa, tantas vezes regada a álcool, drogas, sensualidade; nós estamos lá onde eles vivem, com nossas comunidades e atividades pastorais. Não estou aqui responsabilizando os organizadores e artistas por estas coisas. Mas conteste os fatos, se puder. Quer a prova? Venha de madrugada, pela manhã… E contemple as cenas.

Eu poderia continuar listando outras tantas coisas. Mas, quero fazer uma pergunta aos “afrontadores de plantão”: Quanto tem do seu dinheiro, do seu dízimo, da sua oferta nestas atividades que realizamos enquanto Igreja Católica? Não temo arriscar aqui minha opinião: daqueles e daquelas que foram desrespeitosos, caluniadores, mentirosos, distorcedores da verdade, arrogantes, irônicos e insensíveis para com os idosos … duvido que algum ou alguma de vocês seja dizimista, colaborador da Igreja Católica ou de qualquer outra Igreja. Se for, então estarei pecando.

Outra pergunta: Você, que tanto critica o bispo, os padres, a Igreja, as religiões, o que tem feito pela cidade? Eu te mostrei nossas ações. Mostre-me as suas, as do seu grupo, por favor.
Quero ainda esclarecer aqui que não foi o bispo que decidiu os rumos do carnaval em Crateús. O que fiz, como se pode fazer numa sociedade democrática, foi expressar minha opinião, dizer o que penso. Em nenhuma reunião com representantes do poder público municipal decidiu-se por mudança de local. Eles entenderam e, acredito eu, levados pelo bom senso, que deveriam escutar o apelo das famílias e as ponderações da Igreja, revendo sua decisão.

Não tenho poder de decisão nestas questões. Mas, tenho dever de consciência de chamar à reflexão e ao diálogo, o que não aconteceu da parte do poder público inicialmente. Mas quero aqui ressaltar que o Sr. Prefeito, seu Chefe de Gabinete reconheceram a falha do poder público no processo de encaminhamento das coisas e que nossas conversas acerca do fato sempre foram muito respeitosas e sem conflitos. Infelizmente não posso dizer o mesmo em relação a alguns membros do legislativo municipal (Câmara de Vereadores), que querendo justificar suas decisões, passam ao ataque da Igreja de forma irresponsável, fazendo comparações descabidas.

A estes, convido a que venham participar dos onze dias dos festejos do Senhor do Bonfim, a fim de que sintam o clima na praça, que meçam a intensidade do som, que confiram o horário de encerramento da festa, que vejam as condições de limpeza de nossos espaços ao fim das atividades, que analisem as condições sanitárias nas paredes da catedral, que vejam o brilho nos olhos das crianças. Ah, que confiram os impostos e taxas arrecadados pela prefeitura, inclusive do park, a arrecadação dos bares e restaurantes, dos vendedores ambulantes e barraqueiros, hotéis, do comércio na cidade por ocasião dos festejos do Senhor do Bonfim.

Gostaria de te ajudar a refletir mais uma coisinha: somando, diminuindo, multiplicando, será que o poder público, pelo que investe de recursos do povo, no carnaval e na Festa do Senhor do Bonfim (se é que investe) arrecada mais em qual das duas festas? Quanto a prefeitura gasta na Festa do Senhor do Bonfim? Praticamente nada. Quanto ela ganha? Quanto o comércio local, os bares e restaurantes do entorno lucram? Quanto a prefeitura gasta no carnaval (Estruturas caras, bandas, segurança, serviços de hotelaria etc). Quanto ela ganha? Estou para dizer que entra mais nos cofres públicos durante os festejos do Senhor do Bonfim. E alguns de vocês afirmando que é o bispo, os padres que são ávidos por dinheiro. Eu lhes mostrei onde gastamos o dinheiro da Igreja, bem como prestamos conta de nossa arrecadação e fazemos “milagres” com as pequenas, mas generosas ofertas do s nossos fiéis. Você tem esta mesma transparência com todo o dinheiro de seus impostos que vão para os cofres públicos? Eu te sugiro uma coisa: não perca o seu tempo vigiando os cofres pobres de nossas igrejas; se preocupe mais, numa atitude de cidadania e cultura, em “vigiar” os cofres públicos.

Concluo a minha opinião… minha reflexão com uma impressão que me vem muito forte: a forma de se expressar, com termos xulos, ironia, arrogância, desrespeito, calúnia revelam a qualidade do caráter de quem se expressa. Não precisa acreditar nisso porque fui quem falou. Pergunte a um psicólogo (a), por exemplo e ele (a) to dirá.

Não sou homem da discórdia. Como disse, não preciso de autodefesa. Quem realmente conhece minha índole, meu coração há de defender-me. Porém, sou responsável por esta Instituição chamada Igreja Católica, sou um sucessor dos Apóstolos de Cristo, não por merecimento nem por usurpação, mas por eleição do Papa Francisco. Desejo do fundo do meu coração ser fiel a esta minha missão. Como sucessor dos apóstolos devo zelar pela unidade do meu rebanho. Por isso, suplico: respeitemos as opiniões diferentes! Argumentemos, a partir de ideias e não de ofensas baratas! Tenhamos grandes ideais de progresso cultural, político, econômico, que devolva o sonho e as perspectivas de vida às nossas crianças, adolescentes e jovens, sobretudo!

Mesmo com o coração dolorido, procuro amar os que, de maneira tão cruel, tentaram ferir o meu coração de pastor.

Crateús-CE, 11 de fevereiro de 2020
Dia Mundial do Enfermo
Dom Ailton Menegussi – Bispo Diocesano

Nota de esclarecimento do Bispo de Crateús Dom Ailton Menegussi sobre o Carnaval
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