Curiosidades

“Lamba-me o traseiro”: a música de Mozart que você não conhecia

  (pictore/Getty Images)

Se você acha que as piadas de quinta série são coisa dos tempos contemporâneos, está redondamente iludido — só não mais redondamente que sua mãe. Um dos grandes adeptos desse humor mal educado era ninguém menos que Mozart. Ele mesmo, o compositor austríaco que escreveu As Bodas de Fígaro!

Mozart era um prolífico emissor de cartas (infelizmente, ele não viveu o suficiente para saber os memes de WhatsApp). O endocrinologista, musicólogo e historiador Benjamin Simkin realizou um estudo detalhado de 371 delas e encontrou linguagem escatológica (coprolalia) em 39 delas, o que representa uma prevalência de 10,5%. Mas não parava por aí: consta que Mozart também adorava falar besteirol quando se dirigia à subida sociedade de Viena. Seus assuntos favoritos: nádegas, genitais e defecação.

Inevitável, portanto, que esse humor torto acabasse chegando às suas músicas. E assim surgiu “Leck mich im Arsch” (“Lamba-me o traseiro” na tradução do teuto para o português), de 1782. Trata-se de um cânon, tipo de elaboração muito generalidade na música renascentista, em que uma voz (ou instrumento) inicia a melodia e depois é imitada por outra, no mesmo ritmo e intervalos.

A música provavelmente era somente para fins festivos, criada para Mozart curtir e dar risada com seus amigos. Não foi a única elaboração “suja” que ele escreveu (existem nove conhecidas), embora talvez seja a mais célebre. Diz a letra:

Leck mich im Arsch! (Lamba-me o traseiro!)
Goethe, Goethe! (Goethe, Goethe!)
Götz von Berlichingen! Zweiter Akt; (Götz von Berlichingen! Segundo ato;)
Die Szene kennt ihr ja! (Vocês já conhecem a cena!)
Rufen wir nur ganz summarisch: (Digamos somente, em resumo:)
Hier wird Mozart literarisch! (Cá Mozart se torna literário!)

Continua em seguida a publicidade

Ouça cá:

O trecho faz referência à peça Götz von Berlichingen, escrita por Johann Wolfgang von Goethe em 1773, famosa pela frase “Leck mich im Arsch!” (“Lamba-me o traseiro!”), dita pelo protagonista — uma das expressões mais conhecidas da literatura alemã por seu tom provocador. É equivalente, no inglês, a “kiss my ass” (“beije meu traseiro”). E, veja muito, “traseiro” é uma tradução comportada para “arsch”, que poderia muito muito ser adaptada para pt-br com somente duas letras.

Continua em seguida a publicidade

A primeira edição das obras completas de Mozart, publicada em 1804, censurou os textos e removeu o humor picante, mudando o título de “Leck mich im Arsch” para “Alegremo-nos!”. Mas a letra original foi encontrada em 1991 pela Universidade de Harvard quando a livraria da instituição adquiriu uma coleção de 17 livros com as composições do artista.

“São trabalhos menores”, comentou na quadra Michael Ochs, bibliotecário de Harvard. “Não são o ‘Requiem’ ou ‘Don Giovanni’. Foram escritas para a diversão de Mozart e seus amigos, e mostram um lado dissemelhante dele.”

E por que Mozart era assim? Alguns estudiosos sugerem que, talvez, ele tivesse Síndrome de Tourette, uma hipótese sem comprovação. Mas o mais provável é que o compositor clássico só gostasse de umas piadas sujas mesmo.

“Lamba-me o traseiro”: a música de Mozart que você não conhecia
Acompanhe as últimas notícias e acontecimentos relevantes de cidades do Brasil e do mundo. Fique por dentro dos principais assuntos no Portal Voz do Sertão, aqui você vai ficar conectado com as notícias.

Deixe seu Comentário

Veja Mais Relacionadas

Nossos Produtos