Curiosidades

Pacífico Licutan: o africano muçulmano que quase tomou Salvador no século 19

 Desenho de Jean Leon Pallière Grandjean Ferreira retratando o comércio feito por negros em Salvador, Bahia. (Wikimedia Commons/Jean Leon Pallière Grandjean Ferreira/Reprodução)

O ano era 1835 e havia um cheiro de incerteza no ar. O Brasil ainda era uma grande sociedade escravista, recebendo centenas de navios vindos da África. Um terço da população brasileira era composta por escravizados. Nos mares, os britânicos tentavam completar com o tráfico transoceânico — não por indulgência, mas sim para enfraquecer economias escravistas e para ter uma desculpa para rondar o Atlântico.

O Brasil havia enunciado independência em 1822, mas D. Pedro I havia abdicado do trono em 1831, fragilizado pela instabilidade política dentro e fora do país, dando início ao Período Regencial. Tapume de um mês antes, a Noite das Garrafadas (que foi muito literalmente o que o nome sugere: uma revolta com muita violência) havia servido para mostrar aos europeus que os brasileiros não estavam para gracejo.

Com isso, proliferaram no Brasil revoltas diversas: a Revolta do Ano da Fumaça (Bahia, 1832–1833), a Cabanada (Pernambuco, Alagoas e Paraíba, 1832–1835) e a Revolta dos Carrancas (Minas Gerais, 1833), para reportar somente algumas.

Salvador tinha, em 1835, 65,5 milénio habitantes, sendo 42% escravos (27,5 milénio) e 29,8% de negros ou pardos livres (19,5 milénio). Os brancos representavam 28,8% da população da capital baiana (18,5 milénio). Esse barril de pólvora estava prestes a explodir.

Os malês

Malê é variação do termo “imalê”, que significa “seguidor do Islã” ou, ainda, “religião dos malineses” (povo que introduziu o Islã aos iorubás). Era mal os africanos muçulmanos trazidos ao Brasil eram chamados. Nessa estação, a pobreza predominava na Bahia e, mesmo entre os brancos, havia muitos analfabetos. Mas os escravizados muçulmanos, alfabetizados em língua arábico, sabiam ler e redigir.

Esses rebeldes, em sua maioria, eram iorubás (africanos do sudoeste da Nigéria, cá conhecidos uma vez que povo nagô). Tinham o uso de se encontrar aos domingos em centros islâmicos e escolas corânicas da cidade. Entre esses locais de encontro estavam os machacali (termo que pode vir de “majlis”, câmara, ou logo “masjid”, mesquita), pequenos templos islâmicos construídos precariamente no quintal de alguns casarões. Os senhores, muitos deles ingleses protestantes, permitiam a atividade.

Em 1835, uma revolta começou a grelar nesses centros: e se os escravizados se revoltassem e tomassem Salvador dos brancos? Houve dois estopins para essa teoria.

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O primeiro foi quando André Marques, do 5º Quarteirão da Vitória, inspecionou a lar de um inglês chamado Abraham Crabtree. Encontrou a mesquita improvisada e a denunciou ao juiz de tranquilidade. No dia seguinte, Crabtree ateou lume ao pequeno templo. A indignação generalizada contra os senhores brancos, que não somente privavam os nagôs de sua liberdade, mas também censuravam sua cultura, começou a crescer.

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A prisão de Pacífico Licutan

O segundo mecha foi a prisão de Pacífico Licutan. Esse varão escravizado trabalhava alugado uma vez que enrolador de fumo no Cais Dourado e morava no Cruzeiro de São Francisco com seu senhor, um médico. Entre os malês, Pacífico era considerado um sábio, uma espécie de rabino, pois ensinava a religião aos demais, pregava e recrutava novos adeptos ao Islã. Por isso, era considerado “alufá”, variação regionalista da termo “início” usada na África Ocidental, que significa “clérigo, professor, rabino”.

Licutan havia sido recluso por culpa de seu senhor, que estava referto de dívidas com os frades carmelitas. Sem numerário para confiscar, o governo levou o servo: Licutan foi recluso na Câmara Municipal para ser levado a leilão, de modo que fosse pago o débito.

Um trajo curioso é que, mesmo endividado, o senhor de Licutan se recusou a alforriá-lo duas vezes. Em uma delas, os próprios malês haviam juntado numerário para libertá-lo. Nessa estação, a emancipação comprada já existia, embora fosse rara, pois o servo precisava juntar numerário trabalhando “por fora”. Os malês tinham por hábito levantar recursos entre a comunidade dos libertos para manumitir outros escravos. 

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Uma vez que eles não trabalhavam na sexta-feira, dia sagrado para a religião, também usavam esse numerário para “remunerar” o dia de folga aos senhores.

A revolta

A rebelião foi marcada para o dia 25 de janeiro, data que celebrava o término do Ramadã, mês sagrado para os muçulmanos. O alufá foi informado de que seria libertado. O projecto era, em seguida principiar a revolta em Salvador, conseguir novos recrutas (entre escravizados e alforriados) e seguir para os engenhos, o epicentro da escravidão baiana.

No dia 24, murado de 60 revoltosos se reuniram no porão de um sobrado na Ladeira da Rossio. No entanto, logo se viram cercados por oficiais — haviam sido descobertos. Segundo os registros históricos, Guilhermina de Roza Souza, negra liberta, traiu a revolta e denunciou seus líderes.

Acuados, os rebeldes se dividiram e se espalharam pela cidade. Estavam armados com espadas, lanças, pistolas e espingardas. Muitos deles se vestiam com roupas típicas islâmicas, uma espécie de túnica branca entendida pelas autoridades uma vez que “vestimenta de guerra”, além do takia, o gorro islâmico, semelhante ao turbante usado no candomblé e na umbanda.

Secção do grupo se deslocou para a Rossio Municipal para tentar libertar Licutan. “Mas a missão falhou. Os africanos foram apanhados entre dois fogos, o dos soldados, que atiravam de dentro do cárcere, e o da guarda do palácio da província – atual palácio Rio Branco –, que atirava do outro lado da rossio. Submetido a pesado troada, o grupo rebelde recuou; uma segmento seguiu para o Terreiro de Jesus, mas a maioria se espalhou pela cidade, convocando os africanos à luta”, escreve o historiador João José Reis, da Universidade Federalista da Bahia.

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Os incêndios de casas e prédios públicos, planejados com o objetivo de atrair a atenção dos soldados retirados dos quartéis, não foram postos em prática. Em lugar disso, houve uma ofensiva improvisada, com os 60 revoltosos (mais alguns aderidos vindos da rua), atacando quartéis fortemente armados e, dada a diferença de poderio, sofrendo graves baixas. 

A revolta durou pouco: na manhã do dia 25, já estava encerrada. Uma segmento dos revoltosos tentou evadir pelo mar, mas morreu afogada. “Por muitos dias, as ondas de Salvador despejaram corpos na praia”, escreve o antropólogo e pesquisador Pai Rodney. 

Inclusive, de alguma forma, o crânio de um dos mortos foi parar nas mãos de um norte-americano, que o contrabandeou para a Universidade de Harvard, onde ele ficou até 2025.

A revolta envolveu murado de 1,5 milénio participantes (não todos combatentes). 14 soldados das forças oficiais e 73 rebeldes morreram. Mais de 500 foram presos. Depois da revolta, as autoridades endureceram as regras para os escravizados: eles agora só podiam rodear pelas ruas de Salvador com ordem escrita dos seus senhores, detalhando para onde iam e o que fariam. Outrossim, passaram a substanciar a obrigatoriedade do batismo católico e a reprimir duramente práticas islâmicas.

O término de Licutan

Conquistado, Pacífico Licutan foi réprobo a milénio chibatadas — mesmo não tendo participado da revolta, porque estava recluso, foi considerado um dos líderes do movimento. Outras cabeças da revolta tiveram penas parecidas.

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Durante seu prova, Licutan se recusou a revelar o nome de qualquer um de seus discípulos. Limitou-se a expressar que recomendava “muita paciência” a seus colegas quando estes reclamavam de maus tratos. Também afirmou aos interrogadores que seu nome era Bilal, o que era uma forma velada de cansaço: esse era o nome do primeiro muezim, um preto discípulo próximo do vate Maomé. Os outros africanos que aguardavam para depor certamente entenderam o simbolismo.

Embora a Revolta dos Malês tenha fracassado, Pacífico Licutan se tornou um símbolo importante da resistência negra urbana no século 19, que envolvia não somente quilombos, mas também a fala intelectual e religiosa nas cidades. Até hoje, é visto uma vez que um dos mais importantes líderes da rebelião, a última de uma série de revoltas religiosas ocorridas na Bahia lideradas por negros islamizados. 

Pacífico Licutan: o africano muçulmano que quase tomou Salvador no século 19
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